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O luto raramente é gentil com o coração

  • Foto do escritor: Psi Jemima Ferreira
    Psi Jemima Ferreira
  • há 1 dia
  • 3 min de leitura

Sabemos muito bem que o luto atravessa o trabalho, invade os domingos, senta ao seu lado na igreja, aparece no mercado, no meio de uma conversa em família e em muitas situações.


O luto tem essa capacidade estranha de nos lembrar, repetidamente, que alguma coisa mudou, e que pode não voltar a ser como antes.


Talvez seja por isso que ele seja tão difícil de compreender. Nós costumamos pensar no luto como tristeza, mas perder alguém que amamos é muito mais complexo do que simplesmente sentir tristeza. Uma perda significativa pode afetar o sono, o apetite, a concentração, a memória, a disposição, o corpo e a maneira como nos relacionamos com o mundo. Há pessoas que descrevem uma sensação de estar vivendo no automático, outras sentem ansiedade, irritação, culpa, vazio ou uma dificuldade enorme de imaginar como será a vida daqui para frente.


Isso não significa necessariamente que exista algo errado com você, quando alguém importante morre, não perdemos apenas a presença daquela pessoa. Perdemos também pequenas partes da vida que estavam organizadas ao redor dela. A nossa mente precisa, pouco a pouco, aprender uma realidade que o coração muitas vezes ainda não consegue aceitar.


E talvez seja justamente por isso que o luto não aconteça de uma maneira organizada.

Você pode passar alguns dias se sentindo relativamente bem e, então, acordar em uma manhã qualquer com uma saudade imensa. Pode rir de verdade e, algumas horas depois, chorar. Pode acreditar que está melhorando e se sentir novamente despedaçado diante de uma lembrança.


O luto não é uma linha reta. Pessoas diferentes atravessam a perda de maneiras diferentes, e até a mesma pessoa pode experimentar períodos de maior sofrimento e períodos de maior adaptação. Pesquisas sobre as trajetórias do luto mostram justamente essa diversidade: algumas pessoas apresentam uma recuperação gradual, outras oscilam ao longo do tempo, e outras permanecem com um sofrimento intenso que merece atenção clínica.


Talvez precisemos falar menos sobre como alguém deveria estar depois de uma perda e mais sobre como aquela pessoa realmente está.

Não existe um prazo universal para sentir saudade! Continuar sentindo amor por alguém que morreu não significa necessariamente que você esteja preso ao passado.

Durante muito tempo, algumas ideias sobre o luto fizeram parecer que superar uma perda significava romper o vínculo com quem morreu. Hoje, compreendemos que as relações podem continuar existindo de outras maneiras. A pessoa pode continuar presente nas nossas memórias, nas histórias que contamos, nos valores que aprendemos, nos lugares que compartilhamos e até na maneira como escolhemos viver.

A ausência física não apaga a importância de uma relação.

O luto não é gentil, mas ele é honesto, ele dói pelo vínculo, arde porque havia amor.

E isso não significa que a dor será sempre da mesma maneira. C A saudade pode continuar existindo, mas já não precisa impedir todos os outros sentimentos. É possível sentir falta e continuar a ir vivendo.

Seguir em frente não precisa significar deixar alguém para trás.

Talvez seguir em frente seja aprender a carregar uma história que não pode mais continuar da mesma forma e, ainda assim, permitir que a sua própria história continue.

Porque você continua aqui, e é também sobre aprender a viver em um mundo que mudou sem precisar fingir que o amor nunca existiu.

Então, se hoje o seu luto parece grande demais, talvez você não precise se cobrar para estar bem. Talvez precise apenas reconhecer que alguma coisa muito importante aconteceu com você. Você perdeu alguém. Você amou alguém.

E agora está tentando aprender, dia após dia, como viver com essa ausência.


O luto raramente é gentil com o coração. Mas, de alguma maneira, ele também testemunha aquilo que existiu entre nós e alguém que foi profundamente importante.


Com carinho, Jemima Ferreira

Psicóloga | Luto e Trauma

 
 
 

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©2024 por Psicóloga Jemima Ferreira

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